Gerusa Dreyer 1 e David Addiss 2
1 NEPAF, Hospital das Clínicas da UFPE e Fiocruz , Brasil
2 Division of Parasitic Disease, National Center for Infectious Disease, CDC, GA, USA

DREYER G, ADDISS D. Hope Clubs: new strategy for lymphatic filariasis endemic areas. Transactions of the Royal Society of Tropical Medicine and Hygiene- Bulletin of Tropical Medicine and International Health, 8(1):8(8 pages), April 2000.

Tradução: Patrícia Dreyer

CLUBE DA ESPERANÇA – UM NOVO ALIADO PARA PROGRAMAS DE CONTROLE DE MORBIDADE EM ÁREA ENDÊMICA DE FILARIOSE LINFÁTICA

Em 1997, a Organização Mundial de Saúde (OMS) anunciou um ambicioso projeto: a eliminação global da filariose linfática como problema de saúde pública. A principal estratégia, recomendada pela OMS, para interromper a transmissão parasitária é o tratamento anual em massa com a dietilcarbamazina (DEC) ou a ivermectina associadas com o albendazol. A eficácia da combinação de tais medicamentos contra helmintos intestinais poderá aumentar a adesão das comunidades ao tratamento em massa; porém, tais drogas não revertem as seqüelas crônicas da infecção filarial (linfedema, manifestações urogenitais masculinas [e.g hidrocele] ou danos linfáticos subclínico) - o que pode limitar a adesão das comunidades ao tratamento.

Durante as últimas duas décadas, prevaleceu o conceito de que a progressão da doença filarial resultaria de reação imunológica aos antígenos de Wuchereria bancrofti ou Brugia malayi. No entanto, trabalhos com animais de experimentação e astutas observações clínicas do início dos anos noventa já haviam sugerido que infecções bacterianas teriam participação na progressão da doença. Essa idéia, no entanto, foi ofuscada pelo conceito anterior. Assim, a falta de controle sobre a reação imunológica ao parasito, associada ao fato de que o linfedema e a elefantíase se tornavam mais debilitantes com o passar do tempo, contribuíram com um sentimento de pessimismo entre médicos e pacientes em relação ao tratamento do linfedema.

Recentemente, porém, dados de países como Índia, Brasil, Gana e Haiti demonstram que infecções bacterianas recorrentes no membro afetado pela doença estão diretamente associada com a piora do quadro de linfedema e elefantíase. Portanto, prevenir tais infecções seria a maneira de interromper e até mesmo reverter a progressão da doença.

Para integrar o programa de eliminação global da filariose, o tratamento dos pacientes portadores de linfedema deve ser aplicável às comunidades funcionando como medida de saúde pública. O tratamento deve ser simples, barato, auto-sustentável e reprodutível nas áreas endêmicas de filariose em todo o mundo. Nos últimos dez anos, um programa de tratamento com estas características tem sido desenvolvido em Recife, Brasil. Tal programa tem como base a higiene, cuidados com a pele, exercícios simples e a elevação do membro afetado e já foi reproduzido no Haiti sendo bastante similar aos programas desenvolvidos independentemente em Allepy, Índia e na Tanzânia.As bases do programa de tratamento estão resumidas num livreto de 16 páginas “Redescobrindo a Esperança para pessoas com Linfedema” disponível gratuitamente em português, inglês e espanhol na área de downloads do site em PDF.

  Em áreas endêmicas de filariose, pessoas portadoras de linfedema tendem a ser excluídas da vida em comunidade devido às dificuldades físicas, psicológicas e sociais trazidas pela doença. Essa exclusão quando associada à idéia de que a progressão da doença é inevitável, produz nesses pacientes sentimentos de dependência, passividade e desespero. Nossa experiência sugere que essa realidade pode ser transformada através da implementação dos programas de tratamento que será assegurada pela criação de Clubes da Esperança- reuniões nas quais pacientes compartilham experiência motivando-os uns aos outros para voltarem a participar como membros ativos da sociedade.

Os Clubes da esperança são o resultado de um trabalho inovador que nasceu há sete anos no Centro de Pesquisas Aggeu Magalhães- FIOCRUZ, Recife- Brasil. Atualmente, o trabalho tem tido o apoio da Universidade Federal de Pernambuco e da Organização Não-Governamental Amaury Coutinho, criada em dezembro de 1997. O grande objetivo do Clube da Esperança é manter os pacientes treinados e motivados para continuar o tratamento de seu linfedema de forma independente, barata e eficaz, além de disseminar tais atividades nas áreas endêmicas onde residem. Através da participação e do apoio em grupo, os pacientes são conscientizados de que o sucesso ou não do seu tratamento depende deles e que podem fazer uso dos recursos que cada um possui sejam estes físicos, emocionais ou sociais.

A criação de Clubes da esperança pode trazer benefícios importantes para pacientes e comunidades, como observado em Recife. Os pacientes compreendem que não estão sós. Através de ações especializadas e trabalho em grupo, tais pacientes readquirem o potencial para trabalhos produtivos e realizam mudanças substancialmente positivas dentro se suas comunidades.

Os desafios já detectados para disseminação de Clubes da Esperança incluem: passividade e descrença no programa devido ao antigo conceito de que não havia tratamento eficaz para o linfedema; falta de acesso à água limpa para realizar a higiene; ausência de recursos humanos para implementar o programa; e, atualmente, o limitado envolvimento de doadores e de organizações não-governamentais, assim como de instituições religiosas e de fabricantes de medicamentos (como cremes anti-fúngicos). A participação desses grupos é de fundamental importância para catalisar e solidificar a rede de organizações voltadas para o “pilar do controle da morbidade” que faz parte do projeto de eliminação global da filariose linfática como um problema de saúde pública.

A OMS definiu as ações que promovem a saúde como aquelas que capacitam as pessoas para que assumam controle e melhorem a sua saúde. Em Recife, os Clubes da Esperança têm agido como significativos promotores de saúde para pessoas portadoras de linfedema. Acreditamos que uma rede internacional desses Clubes - criada pelos pacientes e para os pacientes - podem contribuir bastante para fortalecer a ação do crescente grupo de organizações públicas e privadas voltadas para a eliminação global da filariose linfática como um problema de saúde pública.

 

Todos os direitos reservados